A Leite Brasil
Ações
Estatísticas
Artigos
Legislação
Fale Conosco

 

A maldição de Pinochet

Tem produtor que está encarando como fato negativo a compra parcial, repito parcial, de nossas cooperativas pelas multinacionais. Tudo bem, é parte de nosso patrimônio que vai embora, mas se a gente enxergar a venda por outro prisma, há coisas certas que se escrevem por linhas tortas.

O grande mérito da venda é que ela permitiu o saneamento financeiro das cooperativas, as quais não teriam onde buscar dinheiro vivo em melhores condições da que foi adotada. Rolar a dívida no mercado financeiro seria se afundar mais ainda.

Por outro lado, a venda poderia ser evitada, se as cooperativas tivessem sido socorridas com a mesma boa vontade com que o Governo socorreu, por exemplo, os bancos, beneficiados com o famoso Proer. Já o Recoop, uma linha de crédito para cooperativas em dificuldades, foi uma mera promessa.

Agora com dinheiro vivo na mão, os dirigentes das cooperativas têm uma oportunidade de ouro para colocar a casa novamente em ordem. Eles precisam agir com firmeza e fazer exatamente o que fazem aqueles executivos que os norte-americanos chamam de “salvadores de empresas em ruínas”.

O importante agora é pagar o que deve ser pago, melhorar o que deve ser melhorado, demitir quem deve ser demitido, doa a quem doer. Uma máxima da moderna administração diz que dói menos cortar quem deve, do que não cortar quem deve ser cortado. Ou seja, manter parasitas na empresa.

Se não agirem dessa forma, os dirigentes fatalmente serão no futuro administradores de massa falida, deixando de montar o cavalo arreado que passou à sua frente. Será mais uma cooperativa que será obrigada a fechar suas atividades deixando milhares de produtores na rua da amargura.

A expressão é essa mesmo, rua da amargura, considerando o grande peso das cooperativas na formação dos preços do leite no mercado. Basta saber que hoje o preço das cooperativas para seus produtores está em torno de R$ 0,40 o litro, contra R$ 0,30 dos laticínios concorrentes.

Por isso, os mais interessados na sobrevivência das cooperativas devem ser os próprios produtores. O sistema tem tudo para sobreviver, desde que não se cometam os mesmos erros do passado. Se todos enxergarem isso, não têm porque ficarem pessimistas com a situação atual.

Está em nossas mãos um novo modelo de cooperativismo leiteiro. Caso fracassemos nessa missão, resta-nos esperar pelo caos. Teremos jogado pela janela meio século de trabalho e esperança em dias melhores. Será a maldição de Pinochet, aquela que destruiu as cooperativas de laticínios do Chile, caindo sobre nós.

Jorge Rubez – Presidente da Leite Brasil

Janeiro/2001