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Retrospectiva do leite nos anos 90

Nunca na história do leite brasileiro houve uma fase de tantas e tão rápidas transformações como na década de 90. Será que melhoramos ou pioramos nessa década? Esta não é uma lista conclusiva dos grandes acontecimentos do setor no período. Esse serviço é mais para um historiador, mas vamos lá.

Em agosto de 1990 a Sunab baixou a portaria 43, que acabou com o tabelamento do preço do leite, pondo fim a um ciclo que durou meio século, ciclo esse que gerou distorções que acabaram por prejudicar a atividade leiteira até a presente data.

Naquele mesmo ano tem início a escalada do leite clandestino em todo o país. Nisso ajudou a portaria 7889 do Ministério da Agricultura, que transferiu para estados e municípios a fiscalização do leite. Depois veio o fim do ticket do leite do Sarney, que atendia 7,6 milhões de crianças carentes.

O começo da década foi marcado pela especulação financeira. Numa época em que a inflação era de 3% ao dia, os laticínios vendiam o leite à vista e chegavam a pagar os produtores num prazo de 50 dias. Nunca os laticínios ganharam tanto dinheiro.

Foi também uma era em que os produtores de leite B sofreram com a famosa consignação, ou seja, os laticínios alegando que não colocavam no mercado 100% do leite B recebido, reduziam em até 40% o preço para os produtores. Outra fase gloriosa para os laticínios.

Outros fatos: lançamento do Código de Defesa do Consumidor, surgem os primeiros laticínios que começam a pagar pela qualidade, o presidente Itamar Franco cria o programa Leite é Saúde para atender 10 milhões de crianças e grávidas, o Ministério da Agricultura edita portaria para modernizar as normas de produção.

Também na década de 90 tem início no país um fenômeno tipicamente brasileiro: o nascimento das mini-usinas. Elas continuaram crescendo e hoje já são mais de 2 mil. Dominam uma parcela interessante do mercado consumidor das cidades interioranas.

Nos derradeiros anos da década de 90 surgem os sem-fábrica. Esses personagens foram os grandes responsáveis pelo fato do Brasil ter-se transformado no maior importador de lácteos do mundo, talvez a pior mazela da década que se findou.

Podemos citar ainda como outros eventos marcantes, o fenômeno do leite longa vida, o nascimento da Expomilk, o lançamento do leite A e B em modernas embalagens, a incorporação de uma centena de laticínios brasileiros pelas multinacionais, a massificação da coleta a granel e, no apagar das luzes do século passado, as novas normas de produção de leite e derivados, faltando apenas a assinatura do Ministro da Agricultura.

Na área do comércio exterior aconteceram coisas importantes: fixação do direito compensatório nas importações de leite subsidiado da União Européia, a valoração aduaneira, a anuência prévia, redução do prazo de pagamento dos lácteos importados, petição contra os subsídios agrícolas e aumento da alíquota de importação de 16% para 34%, estes dois últimos ainda sob judice.

Conforme tudo que foi dito até aqui, tivemos vitórias e derrotas na década de 90. Uns criadores podem ter fracassado e outros progredido. Contudo, numa parte considero que não evoluímos quase nada. Infelizmente continuamos sendo tomadores e não formadores de preços.

Nossa fragilidade nesse aspecto decorre de muitos fatores, sendo os principais a falta de união dos produtores em torno de suas entidades e o enfraquecimento econômico de nossas cooperativas.

Mudar essa situação é o maior e o mais urgente desafio para os produtores. Depois de tanta pregação, não existe nenhum produtor que não esteja convencido dessa premente atitude, o que já um bom começo.

Falta apenas a decisão, embora mais importante do isso, é a rapidez com que ela é tomada. Como lembrete, agora não é mais o grande que engole o fraco, mas o veloz que engole o lerdo.

Jorge Rubez Presidente da Leite Brasil

Fevereiro 2001