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É preciso uma nova ordem mundial

“O presidente Alfonsin arrolou 5.657 barreiras tarifárias na legislação americana, entre burocráticas, fitossanitárias, etc”. José Sarney, Folha de S. Paulo, 14/12/2001.

Vvou me abster do tema usual de meus artigos, o leite, e me aventurar numa questão mais abrangente, mas que também afeta a todos nós, produtores. É a crise mundial.

A história de Caim e Abel já prenunciava que a vida na terra não seria nada fácil. De fato. Há 2002 anos o mundo não vive em paz. No passado recente foi a guerra fria entre o capitalismo e comunismo, que quase gerou a Terceira Guerra Mundial. Hoje é o terrorismo religioso. Amanhã, sem dúvida, o foco das tensões será o protecionismo comercial, o maior responsável por todos desequilíbrios existentes hoje no planeta.

De um lado, está o Primeiro Mundo, liderado pelos Estados Unidos, Japão e pela União Européia, que resistem em abrir seus mercados para mercadorias estrangeiras. De outro, estão os países em desenvolvimento, Brasil incluso, que lutam pelo direito de colocar seus produtos no Primeiro Mundo para que também possam ser desenvolvidos.

A maioria das nações ricas são favoráveis à abertura comercial, mas só que apenas no discurso. O próprio Nicholas Stern, chefe do Departamento de Economia do Banco Mundial, reconhece essa verdade. “É inaceitável que países desenvolvidos falem para os pobres que eles têm de adotar aquilo que eles próprios não fazem”.

Para quem ainda tem dúvidas de que a doutrina americana é contra o livre comércio com o Brasil, acompanhem estas palavras de Larry Combest, presidente da Comissão de Agricultura da Câmara dos Estados Unidos: “se a única maneira de elevar o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos for tirar os produtores americanos do seu negócio, então o aumento do comércio não vai haver”.

Para os países emergentes galgarem nova posição, só mesmo endurecendo o jogo. Poder de barganha não lhes faltam, pois são poderosos players no cenário internacional. China, Rússia, Índia, Indonésia e Brasil, com seus 2,8 bilhões de habitantes, somam 46% do mercado consumidor mundial. Se fecharem suas fronteiras, onde os países ricos vão colocar seus produtos?

Mas como endurecer o jogo ? Não se trata de declarar guerra comercial aos países ricos, mas liderar um movimento visando criar nova ordem mundial que estabeleça a igualdade plena entre todas nações. Em janeiro último o presidente Fernando Henrique Cardoso acertou em cheio ao dizer na Rússia que “a economia está globalizada, mas a política não”. Eis a chave da questão.

O famoso tratado de Bretton Woods, realizado nessa cidade americana em 1944 para por ordem no mundo, no qual nasceram o FMI e o Banco Mundial, tornou-se obsoleto. Controladas pelas potências, essas organizações desviaram do rumo para que foram criadas e deu no que deu: miséria, analfabetismo, violência, corrupção, desemprego, e outras tragédias que não têm mais fim no Terceiro Mundo.

As próprias nações ricas não se entendem. No começo do ano a Organização Mundial do Comércio, acionada pela União Européia, condenou a política protecionista dos Estados Unidos e aplicou-lhe uma multa de US$ 4 bilhões, a maior de toda história da OMC. Robert Zoellick, porta-voz dos americanos, disse que caso a condenação fosse confirmada, ela teria o mesmo efeito de uma “bomba nuclear”.

É assim que está hoje o mundo, uma verdadeira torre de Babel. Ninguém se entende mais e, enquanto isso, os países ricos continuam subjugando aos seus interesses os países pobres, que já começam a ficar seriamente revoltados com sua deplorável situação. O atentado do Taleban às torres de Nova York é um sinal claro a esse respeito, por mais que tenha sido ação isolada de um grupo de fanáticos suicidas.

O grande problema de hoje é que faltam estadistas da estirpe de Churchill, Kennedy, De Gaule, Willy Brandt, para mudar o estado de coisas. Os nomes que temos não chegam aos pés dos citados. Destituídos de carisma, não conseguem se impor nem seus próprios países e nem têm sensibilidade para reconhecer que o mundo necessita de uma nova ordem mais solidária.

Tony Blair faz os ingleses terem saudade de Margareth Tachter, a Dama de Ferro. Silvio Berlusconi, primeiro ministro da Itália, é acusado de sonegação de impostos. George Busch, que só ganhou as eleições no tribunal, não se mexe para brecar um projeto de aumento dos subsídios agrícolas de US$ 115 bilhões para US$ 188 bilhões para os próximos dez anos.

O presidente dos Estados Unidos é tão despreparado para o cargo de chefe da maior potência do mundo, que Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton, não teve meias-palavras ao se referir a ele num recente artigo na Folha de São Paulo. “Um pequeno grupo de líderes empresariais exerce enorme influência sobre Busch e sua equipe para conseguir que as leis sejam entortadas a favor de suas empresas”. Realmente, o mundo está órfão.

Esse vácuo de liderança é propício para que o movimento dos emergentes em prol de uma globalização simétrica (igual para todos), tenha mais chances de sucesso. As chances crescem mais ainda com a necessidade que os países ricos têm em fazer alianças nacionais estratégicas para criar um clima mais favorável entre civilização oriental contra a ocidental, cuja polarização está deixando todos com os nervos à flor da pele.

A nova ordem internacional não se baseia somente no fim do protecionismo comercial, onde se destacam os subsídios agrícolas, mas sobretudo na criação de um sistema de proteção contra o capital especulativo financeiro, causa maior das crises econômicas do México em 1994, da Asiática em 1997, Rússia em 1998, do Brasil em 1999 e da Argentina em 2002. Ou seja, há quase uma década os países emergentes estão vivendo no olho do furacâo.

Outra medida de vital importância seria acabar com os paraísos fiscais, que preferimos chamar de infernos fiscais. É nessa lavanderia que se esconde o dinheiro mais sujo do planeta: tráfico de drogas, contrabando, corrupção, crime organizado. É o grande câncer da humanidade. Será que os países ricos topariam extirpá-lo?

Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Maio/2002)