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Que pecuária leiteira queremos para o Brasil ?

Pode ser que quando este artigo estiver sendo publicado, as novas normas de produção, a famosa portaria 56 do Ministério da Agricultura, já tenham sido publicadas e entrado em vigor. Mas pode ser que não, afinal das contas, as novas normas estão prontas há mais de dois anos e até hoje continuamos aguardando sua publicação.

De qualquer forma, o (in) explicável atraso da vigência da portaria 56, certamente a campeã dos adiamentos, dá-nos a chance de fazer alguns comentários sobre os absurdos que estão sendo ditos em seu nome, inclusive por pessoas das quais se esperava posições mais esclarecidas. Basicamente são três.

Um deles: o produtor ainda não está preparado para receber as novas normas, pois não possui luz elétrica, equipamentos, cultura, etc. Ora bolas! Se formos esperar que o produtor tenha todas essas e outras coisas, aí que elas nunca virão mesmo. Precisamos ser mais positivos e ao invés de ficarmos à espera das condições ideais, temos que lutar para que essas mesmas condições de tornem realidade.

Aliás, não é a primeira vez que se nota essa visão pessimista da realidade da nossa pecuária leiteira. Tempos atrás se falava que a coleta a granel do leite seria inviável pela falta de infra-estrutura tecnológica e financeira da maioria dos produtores. Pois bem, hoje a coleta a granel difundiu-se de tal forma no país que, em certas empresas e cooperativas, ela atinge 100%, inclusive entre pequenos produtores.

Outro absurdo: o pequeno produtor vai desaparecer com as novas normas. Pela enésima vez, elas não são contra ele; pelo contrário, são a seu favor. Esse tipo de crítica, própria de pessoas que nunca se deram ao trabalho de ler com atenção e espírito imparcial o texto da lei, está sendo usada mais para fins político-eleitorais, do que como crítica construtiva.

Além do mais, se alguém tiver que desaparecer após o advento da portaria 56, não será o eternamente injustiçado pequeno produtor (por que tanto preconceito contra ele?), mas todo e qualquer produtor incapaz, pela própria natureza, de enxergar e se adaptar às mudanças que ocorrem de forma generalizada ao seu redor. Todos conhecem pequenos produtores que se tornaram grandes, eficientes, graças à sua inata capacidade empreendedora.

Terceiro e maior absurdo: a nova lei é carta marcada, criada para favorecer certos grupos. Será que existe alguém super poderoso, capaz de influenciar Governo, entidades, congressistas, enfim, dezenas de técnicos que as elaboraram com muito critério, senso de responsabilidade e conhecimento de causa? É sempre bom lembrar que a nova lei nasceu da forma mais democrática possível, aberta à participação de quem quer que seja através de inúmeras audiências públicas.

A pecuária leiteira está a um passo de uma grande conquista, que poderá colocá-la no mesmo patamar de qualquer país e nos livrar de histórico complexo de inferioridade perante o mundo. Todos devem acatar as novas normas! Se nos guiarmos pela filosofia do coronel Heráclito (“se a lei é fraca, a gente passa por cima; se a lei é forte, a gente passa por baixo”), vamos ter sempre uma pecuária leiteira de segunda classe. É o que queremos para o Brasil?

Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Julho/2002)