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Perturbadores do leite

A análise atual do preço do leite x preço dos insumos terá que se reportar a duas fases distintas: antes e depois da explosão do dólar, decorrente do processo eleitoral. Quando a cotação estava no seu patamar normal, a situação até que permitia aos produtores algum equilíbrio nas contas. Em função do processo eleitoral e das crises externas, a moeda americana fugiu do controle.

No período junho/outubro, os principais insumos usados na alimentação do gado (milho, farelo de soja e caroço de algodão) chegaram a subir 83%. Alguns insumos da adubação (cloreto de potássio e uréia), aumentaram a média de 45%. O preço do fosfato bicálcico, matéria-prima básica dos minerais, cresceu 45%. Não custa nada perguntar: quando o dólar voltar ao normal, o mesmo vai acontecer com o preço desses insumos?

Em relação ao comportamento dos preços do leite no mesmo período, a variação foi ínfima, já que o leite tipo B subiu apenas 1,6% e o leite C um pouco mais de 6%. Por essas e outras distorções econômicas, o produtor está agora como sempre esteve na maior parte da sua vida: fazendo das tripas coração para sobreviver. Corta despesas, vende animais, adia investimentos...

A disparada do dólar não é a única perturbação a sufocar atualmente o produtor. A outra perturbação chama-se supermercado. Aqui a situação é mais séria ainda, pois tudo indica que é um mal que veio para ficar. A manobra dessas empresas não é mais novidade para ninguém: em resumo, eles usam o ICMS e os “pedágios” para gerar mais lucros às custas dos laticínios, ou melhor, dos produtores!

Não são somente os lácteos que estão sofrendo nas mãos deles. A maioria dos produtos que entram em suas lojas também tem que submeter as suas abomináveis regras. O problema dos supermercados não é só nosso, enquadrando-se também na esfera da polícia econômica. Mas não vamos parar de denunciar as arbitrariedades que cometem.

Pelo vulto dos acontecimentos e para evitar que a prática se generalize, é urgente a criação de um fórum de discussão com a participação do governo, para que a cadeia global do leite, da qual os supermercados também fazem parte, possam harmonizar seus problemas. Fica aqui a sugestão para o governo de Luis Inácio Lula da Silva.

Há grande expectativa sobre o futuro do leite no Governo de Lula. Existem alguns fatos positivos. Talvez uma boa coisa seja o seu Programa “Fome Zero”, que pretende tirar desse estágio cerca de 10 milhões de famílias. Sendo o leite componente fundamental de qualquer programa de erradicação do mal, poder estar vindo aí uma política de incentivo à atividade.

Por enquanto é muito cedo qualquer perspectiva otimista sobre o assunto, pois Lula ainda não assumiu o governo. Vamos esperar até janeiro. Devido à crise econômica do país, há o contraponto desse otimismo, muito bem definido por Ludwig Ehrardt, que reconstruiu a Alemanha pós-guerra: “governar é escolher; escolher é excluir”.

Será que Lula terá a coragem de tomar essa mesma decisão, justamente ele, que tanto prometeu a inclusão das classes menos favorecidas num mundo melhor ? Vamos torcer para que seu Governo seja um aliado nosso, e não mais perturbador do mercado leiteiro.

Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Novembro/2002)