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O choro dos descontentes

Quando a gente pensa que está fazendo uma ação meritória (defender o leite), lá vem o coro dos descontentes. Mais uma vez ele se manifestou no recente episódio da TV Globo. Após a brilhante série de reportagens sobre a pujança dos agronegócios brasileiros, enviamos carta à emissora reclamando que a parte da pecuária leiteira tinha ficado a desejar. Uma semana depois o Jornal Nacional apresentou uma matéria exclusiva sobre o leite, desta vez de forma mais satisfatória.

Por incrível que possa parecer, alguns produtores não gostaram da nova reportagem. Realmente não dá para entender um negócio desses. As discordâncias são necessárias (o antológico Nelson Rodrigues já dizia que “a unanimidade é burra”), mas desde que elas não sejam a torto e direito, feitas apenas pelo prazer de contestar. Será que esses “profissionais da crítica” não desconfiam que agindo dessa forma estão fazendo oposição a si mesmos, já que também são produtores!

Obviamente o leite brasileiro tem problemas, como também têm os outros produtos mostrados na reportagem da TV Globo (soja, café, laranja, etc). Mas para que ficar insistindo nesse ponto e esquecer que 90% dos telespectadores do Jornal Nacional são consumidores urbanos? Quanto melhor apresentarmos o leite, maiores serão suas vendas. Quem achar que isso não tem a menor importância, perdeu o bom senso. Para que inimigos, se os temos dentro da nossa própria casa?

O produtor de leite é um ser complicado. Talvez ele seja a cópia fiel dos antigos povos ibéricos, como bem definiu o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda no seu livro Raízes do Brasil. Ele explica que para portugueses e espanhóis, “o índice do valor de um homem infere-se, antes de tudo, do fato de que não precisa depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste; cada qual é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes”.

Uma clara amostra desse egocentrismo está nas expressões usadas corriqueiramente aqui: “salve-se quem puder; cada um por si e Deus por todos; não preciso de conselhos, sei errar sozinho”, etc. Por isso, as organizações rurais caminham com dificuldades no Brasil, numa situação bem diferente da dos países saxões, onde os produtores participam ativamente de organizações que fundaram para defender seus interesses.

Nos Estados Unidos, 80% da produção de leite está nas mãos das cooperativas. No mesmo país existe uma entidade do setor que investe US$ 100 milhões no marketing do leite. No Canadá, uma cooperativa sozinha monopoliza toda a comercialização dos produtos lácteos. Na Nova Zelândia, uma única companhia láctea, controlada por uma cooperativa, é responsável pela exportação de todo leite produzido no país. Na Holanda, uma central de inseminação gerada no cooperativismo realiza esse trabalho em todo rebanho leiteiro do país.

Já no Brasil, os produtores poderiam estar numa situação mais folgada não fosse a ausência do espírito de classe. Um ditado nascido na Espanha medieval corrobora mais uma vez a tese: se tienes cavallo es un caballero; se tienes espada, es un guerrero; pero se tienes tierra, es un rei. Todos se julgam senhores absolutos de seu destino, sem dar conta que os tempos mudaram e que até mesmo, nações potentes, que antes brigaram para se separar, hoje estão se unindo em blocos para tornarem-se mais fortes.

Se os produtores de leite não fossem tão alheios ao associativismo, muitos dos nossos problemas já teriam sido resolvidos. É bom lembrar que demoramos quase meio século para conseguir a atualização das novas normas de produção. Há muito tempo poderíamos ter tornado o Brasil um grande exportador de lácteos; poderíamos ter elevado o consumo de leite no país; poderíamos ser tudo aquilo que as nações acima citadas são hoje. Nossa maior fraqueza é a nossa desunião.

Enquanto a grande maioria dos produtores não olhar para os problemas fora da porteira, sua situação continuará sendo desconfortável. Tivemos o raro privilégio de poder mostrar na TV Globo que o leite brasileiro também tem suas ilhas de excelência, mas fomos criticados. As recentes palavras do presidente Lula caem como uma luva no leite.“Não adianta a gente ficar dizendo que somos coitadinhos, pobrezinhos. Ninguém respeita negociador que chora ou que anda de cabeça baixa”.

Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (Junho/2003)