A Leite Brasil
Ações
Estatísticas
Artigos
Legislação
Fale Conosco

 

O Leite em 2003

Está cada vez mais claro que os maiores problemas do leite estão hoje fora da porteira. Tudo é resultado da desorganização geral da cadeia do setor, da produção ao consumo. A regra é não ter regra. Os preços para o produtor são absolutamente instáveis; inexiste no país uma política de formação de estoques reguladores; as margens de cada segmento são impostas e não negociadas; o mercado varejista está nas mãos dos oligopólios.

Enfim, é um verdadeiro salve-se quem puder. Logicamente, numa situação dessas, a corda arrebenta sempre no lado mais fraco. Se o produtor estivesse bem de situação, ele estaria investindo na fazenda, mandando ver na produção, e não liquidando seus plantéis e cortando itens básicos do seu sistema operacional. Hoje, muito dos insumos que utiliza são cotados em dólar e apesar da moeda americana ter sofrido uma grande queda, os preços dos insumos não a acompanharam. Nossos fornecedores estão nos devendo explicações.

Não é sem motivos que a produção de leite no Brasil, que sempre foi crescente na última década, em 2003 está acenando para baixo. É uma repetição do que se verificou em 2002 e 2001. A redução é pequena, mas enormemente reveladora do estado de ânimo em que se encontra o produtor de uns tempos para cá. É que ele não está conseguindo enxergar fora do nevoeiro algo de mais concreto que não o faça ser hoje o que nunca foi: pessimista com a atividade!

Bem, 2003 estaria praticamente perdido, se não existisse pelo menos uma boa notícia. Bastante conhecedor dos nossos problemas, o Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues está formando a Câmara Setorial do Leite, antiga reivindicação do setor. Uma vez posta em funcionamento, a Câmara terá muitas funções, entre elas, quebrar a cultura do isolamento que permeia há meio século os diversos segmentos da atividade, que se conhecem mais pelas notícias nos jornais do que pelo diálogo direto.

É preciso ficar bem claro que de nada valerá criar uma Câmara se ela não tiver poder jurisdicional, ou seja, capacidade para fazer cumprir as suas determinações. É uma cartada de risco, mas que precisa ser tentada, porque do jeito que está, não dá mais para continuar. Está aí um desafio de Hércules para o nosso Ministro da Agricultura, o nome mais certo para a empreitada. Habilidade para negociar e liderança respeitada são suas grandes credenciais.

Entendo que a Câmara não solucionará nossas dificuldades de imediato. Há antes que descobrir as causas dos desacertos, os pontos críticos de todos os segmentos, para depois tentar chegar às soluções. Por outro lado, uma Câmara jamais funcionará a contento se não tiver a competência de transformar as divergências de seus componentes em convergências, e evitar que um elo mais forte se sobrepunha ao mais fraco. Afinal vender mais leite, oferecer ao consumidor um produto de melhor qualidade, não é meta de todos ?

Nesse sentido, ninguém de sã consciência deixará de reconhecer que o produtor cumpriu sua parte. Recente estudo da Confederação Brasileira de Cooperativas de Laticínios mostra que a coleta a granel do leite é hoje uma notável realidade. Em poucos anos fizemos o que outros países demoraram décadas para fazer. Estamos falando de um país que tem 1 milhão de produtores e não 30 mil, como a Argentina. Por exemplo, na região sudeste quase 90% do leite é recolhido nesse sistema. Tudo saído do bolso do produtor.

Quem mais lutou para a aprovação das novas normas de produção de leite e derivados, senão o produtor ? Quem mais lutou para exigir a introdução do leite nos programas sociais de alimentação nos estados e nas prefeituras, senão o produtor ? Quem mais lutou contra o leite clandestino, senão o produtor ? Quem mais lutou para coibir as fraudes no leite senão o produtor ? Quem mais trabalhou para a modernização da pecuária leiteira, senão o produtor ?

Chegou a hora do produtor cobrar o que lhe é de direito. Vamos para a Câmara Setorial do Ministério da Agricultura, imbuídos dos melhores propósitos, flexíveis nas reivindicações, mas que ela tenha o descortino de “dar a César, o que é de César”. Financiamos a evolução da atividade, que a todos favoreceu. Temos que ser recompensados por isso.

Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (dezembro//2003)