A Leite Brasil
Ações
Estatísticas
Artigos
Legislação
Fale Conosco

 

A arrancada das exportações dos lácteos 

 

Afora a crise social, sem solução em curto prazo, o Brasil não tem do que se queixar em 2004. Foi um ano favorável, como mostram os principais indicadores econômicos: inflação nos eixos, câmbio sob controle, superávit na balança comercial (graças aos agronegócios), redução da dívida externa, queda do nível de risco do país, etc. Além do mais, não houve nenhuma crise externa de grandes proporções, dessas capazes de tirar o Brasil do “mar de rosas”, como disse o presidente Lula.

Em alguns aspectos, nesse clima de tranqüilidade também navegou o leite. A produção brasileira cresceu no patamar histórico, em torno de 4%, devendo chegar a um pouco mais de 23 bilhões de litros em 2004. Na exportação, a expectativa é a de que chegue a US$ 80 milhões, valor que sinaliza que em 2004 pela primeira vez na história fecharemos com superávit; em 2003 o quadro era diametralmente oposto, pois tínhamos um déficit de US$ 64 milhões.

Contudo, esses números são ainda muito tímidos, em vista do grande potencial do país na área. Dono do terceiro maior rebanho mundial de vacas leiteiras, que somados a um parque industrial moderno, e produtores altamente capacitados, o Brasil tem um vasto horizonte a sua frente. Num curto espaço de tempo a produção pode dobrar e as exportações chegar a US$ 500 milhões.Nada difícil, lembrando que nos últimos quatro anos as vendas externas cresceram 350%.

Os consumidores também não têm fortes motivos para se lastimar de 2004. Os preços do leite mantiveram-se praticamente estáveis no ano todo e a dona de casa de norte a sul do país não teve nenhuma dificuldade de comprar qualquer tipo de leite e de derivados lácteos. O mercado esteve plenamente abastecido na safra e entressafra, que aliás quase não existe mais no país. Esse é outro ponto que mostra o quanto a pecuária leiteira evoluiu nos últimos anos.

Quanto aos preços aos produtores, a situação é destoante do “mar de rosas” presidencial. A maioria dos produtores caminhou no fio da navalha, eliminando a capacidade de realizar investimentos nas fazendas. Tivemos várias liquidações de rebanhos leiteiros. Em 2004, dependendo da região, da época, do volume e da qualidade, os preços oscilaram entre R$ 0,45 a R$ 0,58 o litro, não muito diferente do que receberam em 2003.

Em 2004 a situação complicou-se de vez com a escalada dos custos de produção do leite, puxada pelos adubos, cujos preços cresceram 19% em relação a 2003. O disparo decorreu tanto da política dos fabricantes, como da especulação nos preços mundiais do petróleo, fonte da maioria das matérias-primas dos fertilizantes, grande parte importada. Numa cesta de insumos (sais minerais, salário mínimo, volumoso, herbicidas) os aumentos giraram em torno de 8% em 2003/2004.

No tocante aos investimentos, apesar de acumular um PIB de R$ 35 bilhões e ser o maior gerador de empregos do país, cerca de 1 milhão de postos de trabalho, o leite não atrai tantos dólares, como os demais setores da economia. São poucas as novas indústrias e as que surgem são de pequeno porte, mais de atuação regional. Data de vinte anos o último grande laticínio que se instalou no país, a Parmalat, e assim mesmo está a braços com uma séria crise. A empresa, essa sim fez grandes investimentos, principalmente numa área nos quais eles são tímidos, a propaganda e marketing.

Quanto às tendências do leite para 2005, até pelo menos no primeiro semestre, acreditamos que não será um ano muito diferente de 2004, desde que, lógico, que o Brasil continue nos trilhos. Para haver um grande surto de crescimento no setor é preciso investimentos da mesma monta, o que não é caso. O país investe apenas 18% do PIB. A China 37% do PIB. Sem dúvida, o baixo investimento é uma barreira para o crescimento.

O grande capital estrangeiro e nacional pensa num horizonte de 20 anos e é aí que a coisa pega, tantas são as lições de casa não feitas: reforma tributária e trabalhista, burocracia,regras ambientais e agrárias claras, etc. O leite pode crescer como tigre asiático, mas  influenciado por essas questões macroeconômicas, em 2005 caminha para ter a performance de sempre: crescimento de 4% na produção, facilmente absorvida pelos laticínios, e que atende as necessidades do consumo, que não reage em face do desemprego e da queda real dos salários.

 

Jorge Rubez - Presidente da Leite Brasil (dezembro/2004)